O que é o Mayaro, vírus que pode estar se espalhando pelo continente e preocupa cientistas
Descoberta
de caso de febre hemorrágica no Haiti levou pesquisadores a suspeitarem
de que nova e pouco conhecida doença pode estar em vias de virar
epidemia.
Principal transmissor do vírus da zika é o mosquito Aedes aegypti, que também pode transmitir o Mayaro (Foto: Felipe Dana/AP)
Primeiro foi o Chikunguya e, depois, o Zika. Agora, cientistas e
epidemiologistas começam a se preocupar com outro vírus: o Mayaro.
Pesquisadores da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos,
anunciaram ter encontrado no Haiti um caso inédito de mayaro, doença
caracterizada por uma febre hemorrágica similiar à da chikungunya.
Ainda que o vírus não seja totalmente desconhecido - foi detectado nos
anos 1950 -, até agora só haviam sido registrados pequenos surtos
esporádicos na região amazônica e seus arredores.
Especialistas alertam que este caso pode ser um indício de que o vírus
está se espalhando e já começa a circular pela região do Caribe.
"Os sintomas são muito similares aos da chikungunya. Por isso, quando o
paciente vai ao médico, pensam se tratar dessa doença e não sabem que é
mayaro", disse John Lednicky, que liderou a equipe da universidade
americana responsável pelo estudo.
Lednicky explicou não haver nenhum sintoma que distingua a chikungunya
da febre mayaro. Ambas provocam febre, erupções na pele e dores nas
articulações.
Em ambos os casos, os efeitos são mais prolongados do que em paciente
com dengue e zika, chegando a durar de seis meses a um ano.
"O que está acontecendo é que estamos nos deparando com pacientes que
se queixam de erupções na pele e dores musculares prolongadas, mas os
exames dão negativo para Zika e Chikungunya. Então, o que afinal eles
têm?", disse Lednicky.
O preocupante é que o vírus detectado no Haiti é geneticamente
diferente dos que haviam sido descritos previamente, esclareceu o
especialista.
"Não sabemos se é um vírus novo ou uma nova cepa de diferentes tipos de Mayaro."
Casos de mayaro
O vírus foi descoberto em 1954 em Trinidad e Tobago, mas até agora só
se sabia de surtos isolados na selva amazônica e em outras partes da
América do Sul, como Brasil e Venezuela.
O caso encontrado pela Universidade da Flórida foi identificado a
partir de uma amostra de sangue de um menino de 8 anos de uma zona rural
do Haiti. Ele tinha febre e dores abdominais, mas não apresentava
erupções nem conjuntivite, sintomas normalmente associados à
chikungunya.
Pesquisadores da universidade colheram uma série de amostras durante e depois do surto de chikungunya no Haiti.
Após a análise virológica e molecular para detectar os vírus da dengue e
da zika, foi confirmada a presença da dengue no paciente alvo do
estudo, mas também de um novo vírus, identificado depois como o Mayaro,
disse Lednicky.
Enquanto a atenção do mundo estava voltada para o Zika, "a descoberta
deste outro vírus é uma grande fonte de preocupação", disse Glenn Moris,
diretor do Instituto de Enfermidades Patógenas Emergentes da
Universidade da Flórida.
Investigação precisa de recursos
Pesquisadores estão preocupados com uma possível disseminação do Mayaro após o furacão Matthew
Lednicky explicou que é "difícil avaliar o quão grave é o surto de
mayaro neste momento", já que existem poucos estudos sobre o vírus.
"No Brasil, há dois tipos genéticos diferentes, e não sabemos qual é o
mais virulento. Faltam mais estudos e monitoramento das áreas afetadas."
Um problema é a falta de recursos para fazer essas pesquisas, segundo médico americano.
"Na Universidade da Flórida, estamos buscando fundos, mas é difícil
obtê-los para esse tipo de estudo nos Estados Unidos. E no Haiti, os
poucos recursos que eles têm são necessários para cobrir as necessidades
mais básicas dos pacientes."
Lednicky acrescentou não saber o que vai acontecer no Haiti após a
passagem pelo país do furacão Matthew, que poderia ter levado os
mosquitos transmissores da doença até a República Dominicana e outras
ilhas caribenhas.
Possível adaptação do vírus
Muitos pacientes no Caribe e na América do Sul podem estar sendo diagnosticados erroneamente com chikungunya
A semelhança com o vírus da chikungunya também preocupa os cientistas.
Em um artigo publicado na revista Scientific American, Marta Zaraska,
jornalista especializada em ciência, destaca que isso poderia explicar
por que o Mayaro pode se tornar um problema generalizado.
"Ambos os vírus eram originalmente transmitidos por mosquitos da selva,
infectando pessoas na região amazônica, mas o Chikungunya tem se
adaptado e hoje é transmitido por mosquitos urbanos, como o Aedes
albopictus e o Aedes aegypti", que também transmitem a febre amarela, a
dengue e a zika.
Segundo Zaraska, "o mesmo pode estar ocorrendo no caso do Mayaro".
Em exames de laboratório, foi provado que o Aedes albopictus e o Aedes
aegypti podem ser vetores da febre mayaro - e o fato do vírus ter sido
detectado no Haiti sugere que ele também está se adaptando ao ambiente
urbano.
Fonte: http://g1.globo.com/bemestar/noticia/2016/11/o-que-e-o-mayaro-virus-que-pode-estar-se-espalhando-pelo-continente-e-preocupa-cientistas.html