Como lidar com o luto
Normalmente
associado à morte de uma pessoa próxima, o luto, na verdade, é um
processo que nos acompanha ao longo da vida, a cada perda que
enfrentamos em nossa trajetória. Por isso não devemos negá-lo, e sim
aprender com ele, é o que nos propõe Ligia Py, uma das maiores
referências no assunto no país. Psicóloga com mestrado e doutorado pela
UFRJ e membro da Câmara Técnica
sobre Terminalidade da Vida do Conselho Federal de Medicina e da
Comissão Permanente de Cuidados Paliativos da Sociedade Brasileira de
Geriatria e Gerontologia, ela também nos ensina: “O antídoto para a amargura e o rancor é o amor”.
Normalmente
as pessoas associam o luto à morte de uma pessoa. No entanto, como a
senhora diz, este é um sentimento que acompanha o ser humano ao longo de
toda a existência. Pode explicar como isso acontece?
Ligia Py –
O luto é um trabalho psíquico que se faz pelas perdas que vamos
sofrendo ao longo da vida, e não somente quando morre uma pessoa
querida. Na verdade, a nossa vida transcorre numa sucessão de perdas e
aquisições. Já nascemos perdendo o conforto e a segurança do útero
materno para ganharmos a vida. A criança perde o colo e ganha a
capacidade de andar... e por aí vai. O adolescente faz o luto pela
infância perdida e ganha o novo corpo que o introduzirá na vida adulta.
Na aposentadoria, perdemos o trabalho e ganhamos a possibilidade de
reconstruir atividades. Na velhice, o luto se dramatiza, pois as
possibilidades de reconstrução, embora existam, são mais limitadas. O envelhecimento
cursa uma trajetória de um conjunto de perdas, pequenas e grandes
mortes reais e simbólicas, que afetam a pessoa idosa em sua dimensão
física e em sua dimensão psicossocial: a perda do corpo jovem, do vigor e
da beleza; a perda do poder e do status do trabalho; a perda das
pessoas do seu convívio que começam a morrer. E tudo isso acontece numa
perspectiva de tempo mais encurtado, seguindo um processo inexorável de
perda progressiva de capacidades. Não é de se estranhar que, nessas
circunstâncias dramáticas, algumas pessoas se obstinem em negar a
realidade da velhice, numa tentativa, por vezes desesperada, de evitar o
sofrimento. No entanto, é saudável fazer esse luto, uma tarefa psíquica
árdua, sim, mas necessária e possível, que vai abrir possibilidades de
ganhos surpreendentes até o final da vida.
Quais
as implicações quando evitamos esse luto que marca o fim da juventude,
as perdas que fazem parte do curso de vida? De que forma essa negação
afeta o envelhecimento?
Ligia Py – Evitar
o luto cria uma barreira à realidade que está sendo vivida no
envelhecimento e acaba por impedir o fluxo do processo de crescimento
que todo ser vivo deve percorrer até o final da vida. Não confrontar
essa realidade paralisa a pessoa numa ilusão de que a vida parou, de que
o tempo não flui, impedindo-a de perpetuar-se no domínio da sua
autonomia e criar recursos para lidar com as perdas que estão
efetivamente acontecendo. O
descompasso entre a pujança da realidade e a obstinação da negação é
paralisante e faz adoecer. Pessoas que têm experiências bem sucedidas de
luto ao longo da vida demonstram maior capacidade de elaboração na
entrada da velhice e são mais capazes de compreender a importância de
deixar um legado generoso às gerações futuras. É pelo luto que se
viabiliza a despedida do que se perdeu – e está perdido para sempre! –
e, até por isso, se abre caminho para a reinvenção de novas formas de
viver que poderão gerar ganhos surpreendentes.
Como
construir um envelhecimento ativo e saudável? Como evitar a amargura e o
rancor que muitas vezes impedem que a pessoa mais velha aproveite essa
fase da vida?
Ligia Py –
Um envelhecimento ativo e saudável é fruto de uma vida ativa e
saudável. A ênfase na promoção da saúde, desde o nascimento, e mesmo
antes, nos cuidados com a mãe no pré-natal, deve abranger a ecologia
singular de cada pessoa inserida no seu contexto sociocomunitário. O
compromisso é de todos, de cada um em particular e de todas as
instâncias: familiar, comunitária e político-social. Na verdade, somos
todos autorresponsáveis e também corresponsáveis pelos outros. Mas vale a
pena prestar atenção ao fato de que, mesmo em condições de excelência
de cuidados, não existem garantias de que a velhice só venha trazer
saúde e alegria! A vida aponta para o imponderável que nos traz
surpresas, por vezes bem desagradáveis, nas doenças inevitáveis e nas
perdas de capacidades. O antídoto para a amargura e o rancor é o amor,
manifestando-se através de generosidade, compartilhamento, alegria,
tolerância, compreensão que impulsionem os sonhos, os projetos, as
esperanças. Diferentemente da passividade da espera, que nada movimenta,
nada propõe, a esperança, o projeto e o sonho exigem comprometimento na
dinâmica da incansável busca de cada um de nós pelo sentido que
queremos dar à nossa vida, até o fim.
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