terça-feira, 5 de janeiro de 2016

4/1/2016 às 13h08 (Atualizado em 4/1/2016 às 15h35)

O homem que só consegue dizer 'sim' e 'não'

Graham Pawley sofreu um derrame e se comunica apenas com essas duas palavras 
Graham Pawley sofreu um derrame e só consegue dizer 'sim' e 'não'BBC Brasil
É comum que vítimas de derrames cerebrais graves tenham problemas de comunicação como consequência. Mas o britânico Graham Pawley é um caso raro, porque entende tudo mas quase não consegue dizer quase nada. Tem que se virar apenas com "sim" e "não".
Para interagir com Pawley, o interlocutor costuma ter que fazer perguntas com respostas afirmativas ou negativas até descobrir a resposta certa.
— Estou sentado no sofá do apartamento de Pawley, olhando sua ficha médica. Ele está tentando pedir que eu leia em voz alta para ele.
Pawley consegue falar "e" ("and", em inglês) e "mmmm", que para ele significa "sim", e também faz um som de "urr". Quando diz "urr", quer dizer que tem mais algo a falar e quer que alguém tente descobrir o que é.
— E "urr...", ele diz enquanto leio a ficha médica.
— Sim, acho bem interessante ver isso.
O interlocutor vai fazendo perguntas até chegar ao que Pawley realmente quer dizer. E o paciente nega até lhe ser dito o que quer.
— Não.
— Desculpe, tem certeza que posso dar uma olhada nisso? 
— Mmm, mmm. E urr.
— Você quer dar uma olhada aqui?
Então, Pawley balança a mão esquerda de maneira indecifrável. 
— Não.
O médico persiste.
— Posso ficar com a ficha?
— Não.
Paul Webley, voluntário que presta assistência a Pawley, também tenta adivinhar.
— Está bem? Ele é a primeira pessoa que você deixa ler a ficha.
— Não, não, não.
A situação se estende por um minuto ou dois. Além de poucos movimentos, ele pouco consegue usar as mãos para se expressar.

Até que Webley faz a pergunta correta. 
— Você quer que ele leia para você?.
— Mmm, mmm.
— Veja, sempre conseguimos chegar lá.
Paul Webley acompanha Pawley e o visita uma vez por semanaBBC Brasil
Histórico
Em julho de 2013, Pawley teve um derrame grave, que o deixou quase incapaz de se expressar. Ele não consegue ler nem escrever, mas entende tudo o que lhe é dito. Não consegue mexer o braço direito e tem movimentos limitados na perna direita, e ambos lhe causam dores.
Um derrame ocorre quando há uma interrupção parcial no fluxo de sangue para o cérebro — normalmente por um coágulo bloqueando uma veia.
A diretora-assistente da organização social britânica de apoio a vítimas de derrames, Stroke Association, explica as consequências do derrame. 
— Um derrame pode afetar o cérebro de várias maneiras. A maior parte delas transforma sua vida.
Segundo o diretor do sistema de saúde britânico responsável pela enfermidade, Tony Rudd, o problema de Pawley é chamado afasia (perda da linguagem causada por lesão cerebral).
— É raro ter problemas severos de comunicação e não ser afetado em termos de compreensão. Mas pode acontecer. Embora a parte do cérebro que controla a comunicação seja interconectada com a seção que controla o entendimento, elas são separadas.
— Afasia pode significar apenas ter problemas para encontrar as palavras certas. Mas também pode ser pior, como no caso de o paciente não ter a menor compreensão do que é dito nem conseguir expressar nada.
O caso de Pawley é severo, mas não é inédito. Ele não consegue escrever ou ler mais do que uma ou duas palavras simples, mas consegue acompanhar TV e filmes. Pode usar um telefone, mas não consegue digitar qualquer letra.
Sempre vestido de forma impecável em uma camisa bem cortada e gravata fina, Pawley, de 56 anos, vive em um edifício abrigo na região de King's Cross, centro de Londres. Seu apartamento fica no quarto andar de um bloco recém-inaugurado, que conta com assistência médica 24 horas. Quase todas as paredes do apartamento são cobertas por amplas pinturas a óleo.
De acordo com Webley, o paciente pintou todos os autorretratos que ficam em um dos quadros que decoram sua casa.
Limitações
O drama da transformação na vida de Pawley fica claro ao conhecê-lo. O derrame colocou um ponto final em uma série de coisas que o definiam. Webley explica.
— Ele costumava pintar, desenhar, fazer apresentações na rua e criar suas próprias roupas. E não pode fazer mais nada disso.
Pawley tem capacidade motora na mão esquerda para usar seu iPad e carregar sua máquina de enrolar cigarros, mas não consegue executar movimentos complexos. Uma de suas pinturas na parede está danificada — e ele não conseguirá consertá-la.
A aparência, sua higiene e a organização do apartamento deixam claro que Pawley é um homem de detalhes. Dentro de um arquivo de plástico preto, guardado em um armário no quarto, estão diversos envelopes. Pawley tira um por um. Ele era engenheiro mecânico, e as cartas contam a história de sua carreira, da construção de cortadores de grama ao desenvolvimento de peças para aviação.
Há vídeos no YouTube, publicados em 2008, em que Pawley toca gaita. Ele estava assistindo a um deles no iPad quando Webley chegou para uma visita. Pawley costumava se apresentar na região londrina de Camden em suas horas vagas. A gaita continua na caixa original, em um móvel sob a televisão. Há fotos de família na sala e no quarto — muitas são de seu filho, Alex, que morreu aos nove anos de uma doença congênita.
Paul Webley é o coordenador do auxílio voluntário na Opening Doors, organização de caridade que ajuda pessoas LGBT acima de 50 anos.
— Pawley foi indicado a mim pela organização Age UK Camden. Eles contatam pessoas que trabalham com acomodações especiais. E em vez de encontrar um voluntário para ele, eu mesmo o acolhi.
Companhia
Webley visita Pawley todo sábado.
— Foi um caso incomum, e ele precisava de um amigo gay. Entrei aqui e pensei: 'Como vamos fazer isso (dialogar)?' Duas horas depois parecia que estávamos conversando por horas.
Os dois se dão bem, compartilham tragos de cigarro e riem um do outro. Para alguém que não consegue fazer uma pergunta ou contar uma piada, Pawley é, surpreendentemente, uma boa companhia.
Fora Webley, Pawley não recebe muitas visitas de amigos. Ele rompeu com sua ex-mulher há 12 anos, assumiu-se gay e se mudou para o apartamento onde mora atualmente.
Ele não costuma se encontrar muito com uma de suas filhas adultas, que passou um tempo hospitalizada, mas a outra o visita de vez em quando. Pawley também quase não vê a ex-mulher, mas diz que eles se dão bem. Sua irmã aparece às vezes, e um outro irmão morreu há alguns anos.
Pawley usa um chapéu preto com pequenos pedaços de veludo. A peça cobre uma grande cicatriz circular deixada por uma cirurgia após o derrame.
Rudd diz que tem esperanças. 
— Não gosto de dizer que as pessoas nunca vão se recuperar, mas é difícil que ele tenha uma recuperação total. Terapia da fala e comunicação com outras pessoas irão ajudá-lo a melhorar seu nível de comunicação.
Impacto
Pawley cai no choro quando questionado sobre como se sente por tudo o que aconteceu. Ver esse homem tão positivo chorar em silêncio, sentado na janela, dá uma ideia da profundidade do impacto do derrame em sua vida. As lágrimas secam e ele se recompõe aos poucos. E, incrivelmente, parece feliz.
Mais tarde, em um brechó, Pawley experimenta um casaco que é parte de um terno. Ele se levanta da cadeira de rodas e se olha em um espelho que Webley segura. O dono da tenda ri e outros clientes dizem que o casaco lhe cai bem. Ele consegue pechinchar o preço com o dono do estabelecimento.
Como tantas pessoas que perderam o que sabiam fazer, Pawley revelou seu caráter e a paixão pela vida com o derrame.
O prazer que encontra em sua habilidade de encantar e desarmar as pessoas é contagiante e faz suas conquistas deixarem as limitações em segundo plano.
Rotina
Pawley não recebe muita assistência, mas há pessoas de prontidão caso ele sofra uma queda ou qualquer outro incidente. Ele sai à rua em sua cadeira de rodas, faz compras e cozinha sozinho.
Ele e Webley vão a galerias de arte e saem para um drinque quando se encontram.
— Uma vez ele me levou à igreja que frequenta. O padre ficou superfeliz em me conhecer, ele não sabia o nome de Pawley nem nada sobre a história dele.
Para muitos, é difícil começar a entender e se solidarizar com a dimensão da mudança que levou à situação de Pawley hoje. Segundo Rudd, a afasia extrema é pior do que "ser lançado de repente em um país com uma língua e modo de comunicação totalmente diferentes".
Mas, no caso de Pawley, ele está mais perto da normalidade que conhecia. Ele pode entender tudo, ainda que sua capacidade de dizer apenas "sim" e "não" traga isolamento. As pessoas podem apenas tentar adivinhar o que ele está tentando dizer.
Futuro
E o que Pawley espera do futuro? Pintar novamente, ler, fazer mais coletes?
"Mmm, mmm, urr…" Ou seja, sim — mas há algo mais.
Webley completa:

— Amor, um namorado, paquerar.

E acerta.
— Mmm, mmm.
— Ele me pediu para localizar um cara que costumava encontrar antes do derrame, mas acho que ele se mudou de Londres. Há aplicativos de paquera, mas acho que para Pawley será algo que acontecerá com alguém que encontre pessoalmente. Esse é o próximo passo, eu acho. Ele amaria ter um relacionamento de novo, assim como todo mundo.

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