domingo, 26 de julho de 2015

26/7/2015 às 00h10

"Posso beber, doutor?": médico desvenda mitos e verdades sobre o uso de antibióticos

Especialista fala de temas como álcool, superbactéria, horários e anticoncepcional
 
Maior erro dos pacientes é interromper o tratamento no meio Reprodução
Que atire a primeira latinha de cerveja quem nunca ficou em dúvida sobre os possíveis riscos de se misturar antibióticos com álcool. Ou sobre o que é melhor fazer depois de um escorregão no horário: ajustar as próximas doses, pular a de agora, ignorar a prescrição? E o anticoncepcional, será que ele perde o efeito enquanto se toma um antibiótico?
É justamente pela falta de informações assim que pacientes em luta contra infecções muitas vezes cometem o erro mais perigoso quando o assunto é este tipo de medicação: interromper o tratamento.
Seja porque não resistiu à tentação do álcool ou por qualquer outro motivo que escape ao que estava previsto para a terapia com antibióticos, o correto é, mesmo assim, nunca parar a cartela no meio.
Conforme explica o infectologista e professor da Unesp Alexandre Naime Barbosa, outra atitude comum é que os pacientes, seduzidos pela melhora típica dos primeiros dois dias de terapia com antibióticos, relaxem quanto à rigidez do tratamento, ignorando os horários e, muitas vezes, também abandonando os comprimidos antes do tempo recomendado pelo médico.

— Nas primeiras 48 horas, o antibiótico já consegue exterminar boa parte das bactérias. Há uma melhora no quadro da doença, mas, ainda assim, não houve tempo de acabar com todas as bactérias. Se a pessoa para de tomar o remédio, a infecção volta, e pode vir ainda mais forte.
Os micro-organismos super-resistentes estão cada vez mais presentes em todo o mundo. São as populares superbactérias. Para Barbosa, o uso inadequado de antibióticos pela população e a administração de medicações de forma errada pelos hospitais estão intimamente ligados ao crescimento do problema.
Desde 2010, o Brasil registra infecções causadas pela KPC (Klebsiella pneumoniar carbapenemase), uma enzima produzida por bactérias oportunistas, e que já matou pacientes em estados como Santa Catarina, Paraíba e Minas Gerais. Junto com ela, a NDM (New delhi metallo-B-lactamase-1), antes identificada apenas na Índia, também assustou brasileiros com casos em Porto Alegre, em 2013.
Além de interromper o tratamento pelos mais diversos motivos, conduzi-lo de maneira errada também acaba contribuindo para o surgimento e proliferação das superbactérias. De acordo com o infectologista, o famoso ajuste no horário das doses pode ser perigoso.
— O antibiótico tem que ser tomado seguindo a receita, porque cada um tem uma duração diferente. Há alguns que duram um dia, e, então, o nível deles no organismo começa a cair em 24 horas. Outros, duram horas, e precisam ser tomados de duas a três vezes por dia. Se o paciente deixa para tomar mais tarde, vai faltar antibiótico no corpo durante um período, e isso está relacionado a falhas no tratamento e também à superbactéria.
Barbosa avalia que atrasos toleráveis são aqueles de 15 minutos a, no máximo, meia hora. Em casos de períodos maiores, ele sugere que o médico seja avisado sobre a falha, e que o paciente volte a tomar o remédio no horário que estava prescrito.
A automedicação também deve ser evitada. Nos casos em que a quantidade de antibióticos vendida pela farmácia ultrapassa aquela receitada pelo médico, o infectologista explica que é permitido guardar a medicação para ser usada posteriormente — mas só se for, novamente, prescrita por um profissional.
— Mulheres que têm infecções urinárias com frequência, por exemplo, costumam ter comprimidos restantes de tratamentos anteriores. Na próxima vez em que ela tiver sintomas, certamente vai pensar em usar o remédio de novo, só que não pode. Precisa fazer um exame antes, para se certificar de que é mesmo uma nova infecção.
Ainda em relação às mulheres, uma boa notícia. Antibióticos, no geral, ao contrário do que se imagina, não anulam o efeito das pílulas anticoncepcionais. De acordo com Barbosa, as usuárias deste tipo de método contraceptivo podem ficar tranquilas, já que a medicação antibacteriana “não tem este poder”.
E, por falar em “poder”, uma das dúvidas principais de todos os pacientes é justamente sobre a força deste tipo de medicação — será que eles são mais fortes que o álcool, ou perdem seu efeito depois que se toma aquela cervejinha durante o tratamento?
Se você é um bebedor sensato e está tomando antibióticos, Barbosa assegura que seu drinque está garantido. Isso porque, explica o infectologista, a imensa maioria dos remédios contra infecções não sofre interações com o álcool.
— O uso do álcool de forma moderada não vai causar nenhum tipo de alteração na eficácia, não vai alterar a metabolização, a concentração nem a eliminação do medicamento.
Para ele, o maior problema das bebidas é outro.
Caso o paciente faça uso de grandes quantidades de álcool, acima de 50 gramas diárias — em termos práticos, uma dose de uísque ou três latas de cerveja —, ele sofrerá uma imunossupressão, que é uma queda na imunidade. Considerando-se que o sistema imune é fundamental na recuperação contra uma doença infecciosa, aí, sim, haverá um problema.
Mesma coisa se a medicação for da classe dos imidazólicos, como é o caso, por exemplo, do metronidazol, muito usado em casos de vaginites. O abuso do álcool concomitante com o uso do remédio pode gerar o efeito antabuse, com sensação de calor, fibrilação atrial, vômito e taquicardia.
Outro mito que envolve as medicações contra infecções é o de que elas podem manchar os dentes. A informação, no entanto, não passa de um mito, baseado em antibióticos usados há algumas décadas, carregados de uma substância chamada tetraciclina. Embora ainda seja prescrito em casos bem específicos, o elemento foi substituído por outros mais eficazes, que não causam este efeito colateral no esmalte dentário.

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